Projeto: OUVIDORES COMUNITÁRIOS
Santos, Novembro de 2006

1. Resumo

O presente projeto trata do fortalecimento de líderes comunitários através de um processo continuado de formação e reflexão sobre suas práticas junto à população sob sua influência, com a apropriação de paradigmas, procedimentos e mecanismos próprios da cidadania, bem como com a articulação de sua atuação com organismos garantidores de direitos, num sistema que favorece tanto o protagonismo cidadão quanto o controle social das políticas públicas.

2. Apresentação

O Fórum da Cidadania de Santos surgiu em março de 2002, em decorrência da Semana da Cidadania, evento que, desde 1997, reunia anualmente dezenas de organizações sob a coordenação do SESC Santos para promover atividades e palestras no campo da cidadania e comemorar o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Desde seu início, o Fórum se estruturou como um coletivo aberto, de caráter plural, democrático, não governamental e suprapartidário, cujo objetivo é fortalecer e integrar diversas instâncias da sociedade civil no sentido de ampliar espaços e possibilidades para a participação cidadã organizada.
Desde então, comprometidos com esse ideal, centenas de cidadãos, individualmente ou como integrantes de mais de cem organizações não-governamentais, movimentos sociais, universidades, sindicatos, conselhos municipais, comunidades religiosas, associações e instituições da sociedade civil, vêm se reunindo e desenvolvendo diversas ações. Em 2004, articulou o Comitê 9840 local, de fiscalização do processo eleitoral e, ao final do ano, durante mais uma Semana de Cidadania, agora realizada sob sua coordenação, o Fórum promoveu a Conferência Metropolitana pela Cidadania reunindo centenas de cidadãos que, ao final do encontro, articularam-se em torno de diversas propostas de ação.
Para concretizá-las, sentiu-se a necessidade de garantir o mínimo de infra-estrutura e, para isso, foram iniciadas negociações para obtenção de uma sede, sendo criada a ONG Concidadania - Consciência pela Cidadania, formada para prover o Fórum de condições para efetuar sua missão e lhe dar representação jurídica. Durante 2005, o Fórum promoveu os seminários Comunidade e Poder Legislativo em parceria com a Câmara Municipal e Que Conselhos Queremos?, juntamente com a Prefeitura. Instalou em Santos o Comitê pelo Desarmamento e a Semana da Cidadania daquele ano.
Em 2006, o Fórum fortaleceu a estruturação de suas atividades e, em agosto, começou a atuar em sua sede, a Estação da Cidadania, fruto de um convênio entre o Fórum, a Prefeitura de Santos e o Grupo Empresarial Pão de Açúcar, proprietário do imóvel, patrimônio histórico que sediava a antiga estação ferroviária local. Mais do que simplesmente uma base de operações, a Estação da Cidadania começa a se constituir em importante referencial da sociedade civil santista e da ação cidadã organizada. A partir dela pretende-se dar operacionalidade para diversas propostas de eventos e serviços que promovam a participação e o controle social.
Para formatar e viabilizar essas propostas, desde sua inauguração, o Fórum vem desenvolvendo a Comissão de Projetos, com a proposta de manter um banco de projetos, reunindo jornalistas, psicólogos, economistas, assistentes sociais e professores voluntários, com larga experiência e diversificada titulação acadêmica. O presente projeto foi o primeiro escolhido e trabalhado por esta equipe.

3. Justificativa

A grande força da população excluída são as relações de solidariedade. A partir da vizinhança, time de futebol, movimento popular, igreja, sociedade de melhoramentos, da vivência na utilização de serviços, mas essencialmente a partir da própria condição de exclusão, desenvolvem-se preciosas práticas de trocas. Informações, recursos e serviços circulam nas periferias com intensidade, estabelecendo uma rede relacional fundamental para resistir, complementar e até para se contrapor à rede de serviços públicos. Ocorre que, muitas vezes, essa rede relacional abriga soluções nada cidadãs, nada libertadoras, mas alienantes e escravizantes, como as doações da sociedade incluída, a proteção do crime organizado, o favor do clientelismo político.
Ocorre que são séculos de exclusão, paternalismo, repressão e apenas algumas décadas de construção da cidadania, que o país vem desenvolvendo, tendo como referência a Constituição de 1988. Anseio forjado na resistência à Ditadura Militar, a chamada Constituição Cidadã instituiu princípios de universalização, municipalização e participação para as políticas públicas, através do maior processo participativo na elaboração de uma constituição registrado na história brasileira.
Regulamentando seus artigos, na seqüência, vieram leis também marcadas pelo forte viés da participação, que vêm mudando não apenas a realidade do atendimento, mas a própria cultura política de alienação, repressão e exclusão. A lei que instituiu o atual Sistema Único de Saúde, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Orgânica da Assistência Social/ SUAS, o Código de Defesa do Consumidor, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o Estatuto do Idoso e o Estatuto do Deficiente Físico são hoje instrumentos fundamentais para esse novo paradigma de atendimento, protagonismo e participação, que tem a comunidade como espaço privilegiado.
Mas a cultura da alienação é não só muito resistente – por ser parte essencial de um projeto político liberal globalizante, com forte representação em território nacional – como ainda busca sistematicamente o esvaziamento e a desmoralização de tudo o que é público, universalizante e participativo. Trata-se, realmente, de projetos de sociedade opostos. Nesse embate, com o avanço do liberalismo pela massificação do individualismo, do consumismo e da legitimação da violência, o próprio sentimento de comunidade está fragilizado. É essencial que seja realizado um esforço urgente no sentido de fortalecimento das pessoas e práticas solidárias e cidadãs, tendo como base a comunidade e o líder comunitário.
Detentor de informações, relações e de uma visão política mais elaborada, esse personagem é uma construção de diversos anos, durante os quais consolida, amplia ou fragiliza sua área de influência de acordo com fatores como a dinâmica das instituições às quais está ligado, a conjuntura local, bem como de acordo com suas próprias questões pessoais. Potencializar a intervenção desses importantes agentes sociais, refletir sobre os valores que representa, integrar sua atuação e as informações que detêm aos sistemas de garantia de direitos afetos às diversas políticas públicas é o desafio que queremos enfrentar.
Pesquisa realizada pelo Fórum da Cidadania em 2005 com os conselhos e comissões municipais de Santos comprovou que tais instituições – fundamentais para a promoção da participação da sociedade civil no controle social das Políticas Públicas – mostram-se de uma forma geral debilitadas exatamente na viabilização de uma participação da sociedade civil e na utilização dos mecanismos de controle social disponibilizados pela sociedade democrática.
As políticas públicas para todos, no entanto, só serão viáveis com o engajamento efetivo e consciente dos diversos segmentos sociais, com destaque para a contribuição do público usuário, incorporando-a como fundamental indicador de qualidade e eficácia e formando capital político e cultural para o enfrentamento da desigualdade social através do atendimento aos mais básicos direitos da pessoa humana.

3. Objetivo Geral

Disseminar e potencializar o protagonismo cidadão no processo de aperfeiçoamento, controle social e consolidação das Políticas Públicas.

4. Objetivos Específicos

Com o presente projeto, pretende-se favorecer:

A CONSCIENTIZAÇÃO CIDADÃ dos direitos e dos mecanismos administrativos, jurídicos e políticos à disposição do cidadão no Estado Democrático de Direito;
O FORTALECIMENTO da rede relacional comunitária com informação de qualidade e ampliação das conexões com outros segmentos da sociedade;
A PRÁTICA DO CONTROLE SOCIAL através da conexão direta e sistemática entre os usuários dos serviços, seus gestores, conselhos e comissões municipais e a sociedade em geral;
O PROCESSO DE AVALIAÇÃO transparente e periódico das Políticas Públicas que possa aferir, controlar e promover a melhoria das políticas públicas do ponto de vista dos usuários, tendo em vista o monitoramento do impacto no combate à desigualdade social.

5. População Alvo

Atuando por um período de um ano, pretende-se abranger um total de cento e vinte (120) líderes comunitários, preferencialmente jovens, e, através deles, um mínimo de duas mil e quatrocentas* pessoas das regiões com maiores índices de exclusão em relação às políticas públicas no município de Santos. Dada a atuação metropolitana do Fórum da Cidadania / CONCIDADANIA e da própria inter-relação existente entre as diversas problemáticas e populações da região, pretende-se que esta ação represente forte estímulo à sua replicagem em outros municípios.
* A primeira turma de 40 ouvidores, atuando por 9 meses, a segunda turma atuando por 6 meses e a terceira por 3, com uma média de 5 atendimentos mensais e com uma estimativa de desistência de 33% entre os ouvidores formados.

6. Metodologia e Cronograma

O projeto será instituído de forma gradativa e flexível, para permitir a todos os agentes, parceiros e ouvidores o aprendizado no processo, garantida a unicidade básica na linha de trabalho a partir da Pedagogia de Paulo Freire através de um processo crescente de criação e multiplicação de referenciais que embasem a posterior replicação, mas partindo do próprio saber dos ouvidores.
Buscará trazer para o gerenciamento e para o desenvolvimento da ação parte da rede de relações construída no Fórum da Cidadania, atraindo também novos parceiros. Contará com uma equipe para o trabalho direto com os ouvidores composta de coordenador, assistente técnico, auxiliar administrativo e assessor de comunicação.
Toda a ênfase do trabalho se dará no sentido de formar e apoiar os ouvidores, tanto com a discussão de conceitos básicos à cidadania e ao papel da liderança comunitária, informações sobre as políticas públicas e os direitos do cidadão, quanto nas relações com a rede institucional e no suporte concreto às dúvidas e conflitos surgidos no dia-a-dia.

6.1 ESTABELECIMENTO DE PARCERIAS – 1 mês
Haverá parcerias em dois níveis [Concidadania]:
- Parceria de formação (para levantamento de multiplicadores, tais como: universidades, organismos de categorias profissionais, especialistas notáveis);
- Parceria de operacionalização (para levantamento de candidatos a ouvidores, serão contatados: movimentos populares, igrejas, sociedades de melhoramentos, APM´s, ong´s, grêmios estudantis, clubes, agentes comunitários, além dos serviços públicos, para indicação de representantes que irão atuar como interlocutores entre os ouvidores e os programas);
- Divulgação do projeto à sociedade utilizando-se todos os meios possíveis (ver a Proposta de Assessoria de Imprensa, em anexo).
Obs.: todas as organizações parceiras serão convidadas a se fazer representar na coordenação geral do projeto.

6.2 ESTRUTURAÇÃO – 2 meses
- Contratação de organização especializada na formação de agentes para a cidadania [coordenação geral];
- Contratação e treinamento da coordenação executiva e equipe, juntamente aos parceiros de formação, que irão atuar como multiplicadores a partir de uma visão básica unificada [coordenação geral / organização especializada];
- Aquisição de material e equipamento básico [coordenação executiva];
- Organização da forma de trabalho a partir da seguinte propostaAdaptação do cronograma, definição de papéis, procedimentos administrativos, contábeis e definição dos instrumentais de trabalho [coordenação geral / coordenação executiva];
- Consulta para definição da região ou segmento da sociedade que vai receber o projeto piloto, bem como das áreas e forma de atuação dos ouvidores - [coordenação geral / coordenação executiva];
- Organização do primeiro processo de formação, de um sistema de coleta e tabulação de informações sobre as políticas públicas, instrumentais de avaliação do projeto, cartilha, material didático e publicitário [organizações parceiras / coordenação geral / coordenação técnica / especialistas / coordenação executiva / educadores];
- Levantamento de dados sobre as políticas públicas na cidade [coordenação técnica];
- Divulgação do projeto à sociedade em geral e à comunidade a ser abrangida em particular utilizando-se todos os meios possíveis [coordenação executiva].

6.3 FORMAÇÃO – 1 mês
Realização do primeiro processo de formação com ouvidores e sensibilização com interlocutores, integrando-os ao projeto, definindo procedimentos de trabalho e abrangendo os seguintes eixos [coordenação técnica]:
- Políticas Públicas: princípios, legislação e estrutura no município;
- Instituições promotoras de direitos e de apoio (conselho de políticas públicas, conselho tutelar, ouvidoria, ministério público, organização popular, meios de comunicação, polícias, defensorias públicas);
- Estratégias e mecanismos de efetivação de direitos (petição, representação, ação civil pública, denúncia, projeto de lei de iniciativa popular, manifestações e participação em eventos);
- A organização das comunidades (reflexão diagnóstica sobre as formas de organização de cada comunidade a ser trabalhada);
- Construção de combinados básicos para a orientação da atuação dos ouvidores comunitários.
Lançamento do projeto à comunidade, da cartilha, de campanha de divulgação e formatura da primeira turma [coordenação executiva].

6.4 EXECUÇÃO E ACOMPANHAMENTO – 3 meses:
Serão oferecidos aos ouvidores diversos mecanismos de acompanhamento [coordenação técnica]:
- Suporte cotidiano (orientação por telefone, e-mail, contatos diretos);
- Reuniões de acompanhamento quinzenais;
- Audiências públicas para apresentação dos dados aos conselhos e à comunidade, inclusive para acolhimento de avaliações e sugestões para o projeto.

6.5 AVALIAÇÃO DO PILOTO E PREPARAÇÃO DE OUTRAS TURMAS- a cada três meses:
- Levantamento dos prazos, da quantidade de demanda atendida e da resolutividade da intervenção dos ouvidores comunitários a partir de formulários preenchidos pela comunidade, coordenação geral e executiva, educadores e parceiros [coordenação executiva e técnica];
- Escolha de novas regiões ou segmentos e treinamento das outras turmas levando-se em consideração eventuais manifestações;
- Divulgação do projeto à sociedade em geral e aos setores abrangidos em particular utilizando-se todos os meios possíveis;
- Execução e acompanhamento.

6.6 AVALIAÇÃO FINAL – 1 mês
- Elaboração do Relatório Final e registro da experiência em publicação própria [coordenação executiva e técnica, com a participação de todos].

7. Monitoramento e Avaliação

Indicadores de resultados:

SUFICIÊNCIA DAS PARCERIAS DE FORMAÇÃO: relação entre multiplicadores e capacidade de disseminação da formação para lideres comunitários;
SUFICIÊNCIA DAS PARCERIAS DE OPERACIONALIZAÇÃO: proporcionalidade entre levantamento de candidatos a ouvidores e apoio das organizações-chave;
SUFICIÊNCIA DA DIVULGAÇÃO DO PROJETO:
- número de inserções na mídia do projeto, graduadas mensalmente
- grau de conhecimento da população sobre o projeto: avaliação em eventos; atribuição de importância ao projeto feita pela população e líderes comunitários;

GRAU DE CONHECIMENTO E PREPARO DOS OUVIDORES:
- avaliação sobre conhecimento da dinâmica das política spúblicas antes e depois da capacitação;
- capacidade de encaminhamentos compatíveis:
* direcionamento das demandas locais ao órgão competente;
* interlocução voltada à resolutividade; compromisso com o papel revestido; desprendimento de vantagens pessoais;
* capacidade de atuar no específico de sua localidade conjugada à visão do conjunto da cidade/ região;

CAPACIDADE DE INTERLOCUÇÃO COM CONSELHOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS: participação nas audiências, encaminhamento de problemas e debates, conjugação das demandas à priorização da política estabelecida pelo conselho;

ABRANGÊNCIA DO PROJETO: quantidade de ouvidores formados, índice de desistência, quantidade de pessoas orientadas.

8. Recursos

Pessoal
Mensal
Coordenação Geral: 2.000,00
Assistente Técnico: 1.600,00
Auxiliar administrativo: 700,00
Assessor de comunicação: 1.600,00
SUB-TOTAL (c/ encargos: x13+50%): 115.050,00
Serviços
Custo anual
Treinamento: 5.000,00
Monitores: 3.000,00
Documentação (vídeo, fotos, relatos): 5.000,00
Gráfica: 10.000,00
Contabilidade: 4.200,00
Apoio ouvidores (telef./transp./alimentação): 6.000,00
SUB-TOTAL: 33.200,00
Bens e material de consumo
Custo anual
Computador: 5.000,00
Data-show: 5.000,00
TV: 1.000,00
Camisetas (200):3.000,00
Expediente: 6.000,00
SUB-TOTAL: 20.000,00

Infraestrutura
Mensal
Água/ luz/ telefone*: 1.000,00
Aluguel salas*:500,00
SUB-TOTAL:18.000,00
Geral
* CONCIDADANIA: 18.000,00
Apoio: 168.250,00

A N E X O

Proposta de Assessoria de Imprensa
O trabalho de assessoria de imprensa terá como objetivo divulgar o projeto em veículos de comunicação da Baixada Santista (jornais impressos, revistas, sites, emissoras de televisão e de rádio), buscando proporcionar os seguintes resultados:
- Dar maior credibilidade, respaldo e legitimidade ao projeto na sociedade;
- Despertar o interesse da imprensa e da sociedade para a discussão da temática relacionada ao projeto;
- Colaborar com a mobilização da sociedade para aderir e participar da proposta;
- Tornar os coordenadores do projeto fontes de informação para a imprensa sobre o tema.
A divulgação do projeto implicará, direta ou indiretamente, em uma contrapartida para os investidores, que terão seu nome vinculado ao projeto e em todos os materiais enviados aos veículos de comunicação.
O trabalho da assessoria de imprensa consistirá em:
- Produção de releases informando à imprensa sobre o projeto;
- Agendamento de entrevistas para a coordenação do projeto;
- Atendimento à imprensa e suas solicitações;
- Envio de sugestões de pauta aos veículos de comunicação para cobertura das ações do projeto e seus resultados;
- Envio de artigos sobre o tema;
- Acompanhamento das ações do projeto com objetivo de coletar informações a serem divulgadas;
- Disponibilização no site do Fórum da Cidadania das informações produzidas pela assessoria de imprensa;
- Coordenação de clipagem - coleta de matérias veiculadas em jornais, sites e emissoras de televisão. O serviço é realizado por empresa especializada - o custo gira em torno de R$ 300,00. A contratação da clipagem é uma garantia de que todos os materiais divulgados na imprensa serão coletados, já que a assinatura de todos os jornais impressos se tornaria um ônus inviável, além da dificuldade do acompanhamento e gravação na TV das matérias veiculadas.
A assessoria de imprensa também dará orientação para as demais ações de comunicação do projeto, tendo em vista melhores resultados de divulgação para os diversos públicos.

 

 

Endereço: Av. Ana Costa, 340 (conflluência com a Av. Francisco Glicério) Tel.: 13-32212034

Website por Marcelo Chagas