A Conferência que faltava... e que vai continuar faltando!

As Entidades signatárias deste documento, a saber, AFUSE - Sindicato dos Funcionários e Servidores da Educação, APAEP / BS - Associação de Pais e Amigos de Escolas Públicas da Região Metropolitana da Baixada Santista, APEOESP - Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, EDUCAFRO - Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes e Fórum da Cidadania, vêm a público manifestar sua total discordância frente à concepção e métodos anti democráticos que formatam a Conferência Municipal de Educação de Santos, a ser realizadas nos dias 30 e 31 do corrente mês.

Denunciamos, de imediato, o fato desta Conferência, não ter previsto o desenvolvimento de pré conferências. Como é possível conceber uma Conferência de Educação que não se realiza desde o ano de 1996 ( outra questão que também causa estranheza e que até hoje não foi explicada pelos governos que se sucederam daquela época à atualidade), sem promover discussões prévias setoriais, condição indispensável para um evento desta natureza que se pretenda democrático e participativo?

Como é possível concentrar em apenas poucas horas, conforme prevê o programa do evento, para que os grupos de trabalho e plenária possam ao mesmo tempo refletir, debater, e definir prioridades para a educação no município, considerando-se que a Educação é a área mais importante dentre as políticas públicas?

Ao não promover as pré conferências, e em consequência, restringir a participação do evento à iniciativa de âmbito individual, os organizadores da Conferência alijaram a indispensável participação sistêmica e representativa de relevantes instituições organicamente ligadas à área, dentre elas Associações e Sindicatos dos Profissionais e Servidores da Educação, Universidades , especialmente aquelas que oferecem cursos pedagógicos, e de outras importantes instâncias da Sociedade Civil, igualmente interessadas e comprometidas com a Educação concebida em lato sensu.

Ao não promover pré conferências os organizadores da Conferência a descaracterizaram demonstrando claramente a intenção de impedir ou limitar a livre manifestação do contraditório e das diferentes visões técnicas, filosóficas, pedagógicas e políticas provenientes dos mais variados segmentos organizados da sociedade, condição básica e imprescindível à pratica democrática.

Considerando-se que o processo de gestão de educação na Cidade começa justamente na participação em conferências municipais e, consequentemente, nos conselhos municipais, formatar a citada conferência sem a devida oportunidade da participação do cidadão em pré-conferências realizadas, no mais das vezes, próximo ao seu lugar de moradia, pré-conferências estas que legitimam as propostas apresentadas e a escolha de representantes destas junto à conferência, não nos parece algo que tenha semelhança com um processo democrático.

É lamentável que após um longo período de interrupção, a mais aguardada das conferências municipais seja realizada de forma empobrecida, que restringe a participação e adota um posicionamento acentuadamente diretivo e autoritário em sua programação, a ponto de antecipadamente ao próprio evento e à revelia de seus participantes inscritos, designar os coordenadores e os relatores dos grupos de trabalhos.

Outro aspecto a ser criticado na organização do evento é a excessiva concentração do foco “ensino” na programação do evento (a maioria dos grupos de trabalho abordam este tema). Sem desconsiderar a sua importância, há de se reconhecer que ele não dá conta e é um segmento do amplo e complexo universo educacional.

Perde-se assim a rara oportunidade de se refletir, aprofundar e encontrar novos caminhos e possibilidades para superar desafios, no sentido de provocar avanços e transformações de grande relevância, decorrentes das respostas a serem obtidas consensualmente para importantes indagações, dentre os quais destacam-se:

01 - Como melhor viabilizar na Escola a abordagem dos chamados temas transversais, como ética, cidadania, ECA, e meio ambiente?

02 - Como tratar na Escola questões como afetividade, cultura, sexualidade, gravidez precoce e DST, violência, drogas e crime organizado?

03 - Como aprimorar a gestão democrática da Escola e garantir a Educação Universal ? - Como viabilizar de forma mais efetiva a atuação dos Conselhos de Escola e o trabalho de Grêmios Estudantis ?

04 - Como transformar gradativamente a Escola em Centro de Referência para a Comunidade ? Como viabilizá-la como instrumento de integração com outras políticas públicas: saúde, assistência social, esporte e segurança, dentre outras ?

05 - Como melhor aproveitar as possibilidades educacionais proporcionadas pelas atividades esportivas e culturais na escola, em horários complementares às aulas regulares ?

06 - Como tornar os currículos e as disciplinas mais atualizadas e mais compatíveis com os interesses e necessidades dos educandos ?

07 - Como garantir e aprimorar a formação profissional dos professores, técnicos e servidores da educação ? Que medidas poderiam ser implementadas para sua valorização e incentivo à atividade docente ?

08 - Como colocar em prática as propostas para a Educação aprovadas pela Conferência Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente, realizada em 2007 ?

09 - Como inserir o trabalho de Assistentes Sociais e Psicológicos, integrado-os às equipes técnicas e pedagógicas das escolas ?

10 - Como definir democraticamente indicadores de avaliação para as políticas públicas educacionais ?

Evidentemente, pela metodologia adotada pela Conferência , as indagações acima não terão condições de serem devidamente aprofundadas pelos grupos de trabalho ou, quando muito, o serão superficialmente, não evidentemente por incapacidade de seus participantes, mas pela absoluta falta de tempo e condições, imposta pela organização do evento.

Em suma, esta Conferência não é participativa e muito menos democrática. Fica evidente a intenção de realizá-la apenas para cumprir formalidades que em linguagem popular se traduz em “cumprir tabela”. Ou ainda para mais uma vez, e infelizmente, fazer valer o chavão “mudar para que tudo permaneça exatamente como está”.

Por último e para não restringir este documento a uma visão crítica, mas também dotá-lo de conteúdo propositivo, sugerimos, por todas as razões acima enunciadas, que o processo de realização desta Conferência não se encerre em si mesma e que haja continuidade dos trabalhos a partir da imediata e livre constituição de fóruns setoriais, de alguma maneira integrados, e que venham a se debruçar e aprofundar sobre as conclusões e encaminhamentos aprovados pela Conferência , bem como sobre as considerações e propostas formuladas por este documento.

Sugerimos também que este trabalho envolva uma avaliação séria sobre a atuação e a forma pela qual está constituído o Conselho Municipal de Educação, cuja história desde a sua constituição aos dias de hoje não é condizente com uma práxis autônoma, democrática e participativa, ensejando assim sua inadiável reformulação.

E, concluindo, queremos deixar claro que, ao elaborar este documento crítico e propositivo, as Entidades que o subscrevem não estão absolutamente interessadas em enveredar a discussão para o campo político partidário, ainda que esse foco seja igualmente legítimo e condizente com a estrutura democrática que vigora há 20 anos em nosso país, tão oprimido por períodos ditatoriais em períodos históricos recentes e distantes, cuja redemocratização é uma conquista do povo brasileiro que não poupou lutas e vidas de protagonistas e atores de várias gerações.

Não obstante, de modo a não incorrer em influências típicas do período eleitoral, que provém tanto da oposição quanto da situação, recomendamos que uma nova data após as eleições seja definida para complementar este processo, que bem ou mal origina-se desta Conferência , ressalvando-se porém que os trabalhos dos fóruns setoriais, sugeridos por este documento tenham início imediato.

Santos, 27 de maio de 2008.

Texto original subscrito por :

AFUSE
APEOESP
APAEP
EDUCAFRO
Fórum da Cidadania

 

 

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