Situação da população de rua em Santos

Uriel Villas Boas entrevista Célio Nori

O Brasil construiu, através de sua história, um projeto de sociedade responsável pelo que é hoje a maior exclusão social do planeta. Temos a segunda maior frota de helicópteros do mundo, o segundo maior mercado de celulares, a segunda maior ‘‘indústria’’ de cirurgias plásticas, ao mesmo tempo que péssimos índices de cobertura de serviços de esgoto, terríveis indicadores de qualidade na área de educação e, tragicamente, a maior concentração de renda do globo. Mas vivemos um momento que está ofertando pelo menos três poderosos motivos para que o País combata verdadeiramente sua vergonhosa exclusão social.

O primeiro deles é o marketing social. Já há algum tempo, empresários inteligentes vêm descobrindo o retorno em imagem para empresas, e portanto em simpatia e fidelidade a seus produtos, oriundo de ações no chamado campo social. Empresas que consomem e descartam empregados em massa, que se isolam da vizinhança atrás de câmeras e cercas eletrificadas, que apenas enxergam custos em qualquer possibilidade de ação social, vêm sendo claramente ultrapassadas por fundações, sindicatos patronais, associações de empresas que desenvolvem importantes programas nas áreas da cultura, educação, esporte, assistência social.

Também muito antiga como fenômeno, mas muitíssimo potencializada como preocupação dos brasileiros devido às ações do crime organizado, a segurança pública compõe um segundo grupo de motivações. Em paralelo à explosão de lucros da indústria e serviços ligados à segurança, resta dos atentados, cada vez mais forte, a convicção de que não basta uma cidade ter programas, prédios e verbas destinadas às políticas sociais se, como em Santos, as melhores escolas, hospitais, centros esportivos e culturais concentram-se escandalosamente nas regiões nobres.

Nesse momento eleitoral, no entanto, delineia-se com clareza a profundidade do abismo social e existencial dos excluídos e sua importância política. Governos, partidos e candidatos, em nossa história, foram simplesmente destroçados por apenas um dos inúmeros escândalos que foram descobertos, investigados e, como surpresa positiva, reprimidos por uma Polícia Federal crescentemente aparelhada e profissionalizada. O Governo Lula não só resistiu às tremendas tempestades, mas talvez conquiste a reeleição simplesmente por ter promovido a massificação da presença do Estado junto às classes desfavorecidas.

A Economia, a Segurança e a Política, isoladamente, já seriam preocupações centrais das sociedades, mas articuladas como se mostram, resultam em argumento suficiente para motivar quaisquer empresários, consumidores, dirigentes, eleitores, trabalhadores e técnicos minimamente dotados de sensibilidade e inteligência. Quem não se mobilizar contra a desigualdade não sobreviverá politicamente, economicamente, fisicamente, quem sabe. Num primeiro momento, a motivação tende a ser mesmo superficial, mas nem por isso teremos que aceitar como respostas apenas ações assistencialistas e marqueteiras.

A articulação de programas que apóiem e reconheçam a riqueza cultural, esportiva, econômica, empreendedora e política das periferias, abandonando o velho modelo de trazer soluções prontas e insuficientes para seres apassivados — em Santos, a Assistência Social teve seu orçamento diminuído! — será importante eixo de ação. O fortalecimento das pessoas para o trabalho, para a produção, para o protagonismo social, em ações desenvolvidas sob a ótica e a lógica do interesse público e da parceria com as forças solidárias serão o fio condutor. Como gerentes destas políticas e programas, os Conselhos e Fundos de Políticas Públicas, desde que reconheçam o combate à desigualdade como seu grande campo de ação, passarão, assim, para o primeiro plano desse processo de mudança que, agora como nunca, concentra os mais caros sonhos, necessidades e prioridades das sociedades santista e brasileira.

(*) Maurício de Araújo Zomignani é assistente social, membro do Fórum da Cidadania.

 

 

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