Para excluir a exclusão

MAURÍCIO DE ARAÚJO ZOMIGNANI.
Assistente social e membro do Fórum da Cidadania de Santos


Trabalhando junto ao Fórum da Cidadania no estímulo à participação qualificada do cidadão na revisão do Plano Diretor de Santos, temos percebido que a cidade que queremos depende basicamente da capacidade e das decisões de seus agentes, expressas nos instrumentos existentes de planejamento urbano e de sua execução. Mas, perguntamo-nos, qual cidade? Apenas a cidade física, composta por ruas, praças, edificações, áreas verdes? Também a cidade dinâmica, a utilização residencial, econômica, de lazer e transporte que damos à cidade física? Haverá espaço também para uma cidade humana, que priorize a permanência, a expressão, a convivência de quem a utiliza? E também: que agentes? Apenas legisladores, técnicos, executores da política urbana, empreendedores imobiliários e agentes econômicos? Poderão ser incluídos também turistas e a população oriunda da migração diária intra-regional? E os moradores, deve ser dada prioridade aos que possuem maior capacidade de consumo e de pagamento de impostos? Por fim, que planejamento? Apenas aquele que adapta e ordena o presente, amenizando os efeitos de correntes migratórias, mudanças climáticas, dinâmica demográfica e do interesse imobiliário? Também aquele que preserva a memória e a identidade de seus moradores? Será inviável a projeção de um futuro com qualidade de vida para todos? Se notamos a forte tendência de se pensar a cidade física em detrimento da cidade humana; de predominância, entre os agentes políticos, de uma visão de geração de oportunidades de investimento e de impostos; se identificamos um padrão de planejamento urbano focado na diminuição das degradações e na preservação de fachadas, e não na construção de uma cidade voltada a todos os cidadãos, será urgente que desenvolvamos um processo coletivo de questionamento dos rumos que têm tomado a cidade que escolhemos. Por que tantas escolas da periferia construídas em praças? Por que só se tem fiação elétrica subterrânea em áreas privilegiadas? Por que os zoneamentos das políticas sociais não respeitam o abairramento da cidade? Qual o motivo da concentração de equipamentos culturais e jardins? Por que é tão deficiente a fiscalização de templos, calçadas, invasões, subabitações? Qual o motivo de se asfaltarem seguidamente certas ruas e deixarem outras esburacadas? Como fazer com que a manutenção de água, esgoto, gás, calçadas e vias públicas obedeça a um planejamento integrado? Uma cidade que expulse seus moradores em função da especulação imobiliária e de moradores eventuais poderia enfraquecer o senso de comunidade, a solidariedade e potencializar a violência? Democratizar o planejamento urbano exige que se encare o desafio político e pedagógico de valorizar, capacitar e articular os setores desmobilizados da sociedade, bem como de incluir todas as temáticas e segmentos da população no próprio processo de promoção de uma cidade com melhor qualidade de vida para moradores, visitantes e empreendedores, sem exclusões ou privilégios.

Publicado em A Tribuna, Terça-Feira, 19 de Maio de 2009, p. A2.


 

 

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