Verticalização urbana e qualidade de vida

(*) Alfredo Cordella

As discussões sobre os estados da qualidade de vida em comunidades urbanas têm se intensificado nos últimos tempos. Em escala local e global, são feitas inúmeras referências que permitem associar os níveis de bem-estar, individual e coletivo, e a nova realidade urbana, que se configura pela expansão imobiliária.

Neste contexto, são dois os desafios conceituais que devem preceder, com clareza, o início de qualquer discussão: (1o) a análise do fenômeno urbano e (2o) a percepção da qualidade de vida.

A cidade, segundo David Harvey, é visivelmente uma coisa complicada. Para o eminente professor de Geografia Urbana da Universidade de Oxford, ";parte da dificuldade que experimentamos em lidar com ela [a cidade] pode ser atribuída à sua complexidade inerente. Mas, nossos problemas podem também ser atribuídos à nossa falha em conceituar corretamente a situação".

Na obra "A justiça social e a cidade", Harvey deixa claro a complexidade do ambiente urbano e destaca que, regra geral, focalizamos o "ataque" aos problemas urbanos sem analisar mais detidamente o fenômeno urbano.

Uma das vertentes, na análise madura da teoria geral da cidade, está em estabelecer uma "ponte" entre os processos sociais e a forma espacial que a cidade, progressivamente, assume.

Na evolução da morfologia urbana, cabe destacar que a intensificação do uso do solo (adensamento), regra geral, está vinculada à disponibilidade de infra-estrutura, condições do meio físico, e até elementos estéticos da paisagem urbana que estimulam o bem viver.

É óbvio que se a área urbana desejada já está edificada, a intensificação do uso do solo (adensamento) resulta na verticalização das construções. As pessoas desejam morar bem, aqui ou ali, e assim a cidade cresce em determinada direção.

Diante desta realidade, típica do fenômeno urbano, o desafio está em acompanhar os fatores de adensamento e o consequente processo de verticalização, evitando impactos severos na qualidade de vida, em áreas de influências diretas e indiretas.

Na outra ponta desta acalorada discussão está, também, a dificuldade em se definir qualidade de vida, de forma absoluta.

Diversas comunidades urbanas já concentram atenção em indicadores de qualidade de vida, criando verdadeiros observatórios do bem-estar individual e coletivo, com destaque para os níveis individual e coletivo, inseridos em domínios materiais (saúde, rendimentos, mercado de trabalho, mobilidade...) e não materiais (relações interpessoais, tempo livre, acesso à informação, participação cidadã...).

Na análise mais aprofundada do fenômeno urbano, é necessário muita cautela ao se afirmar que a verticalização urbana está associada à qualidade de vida.

As mudanças no meio físico, devido à verticalização do espaço urbanizado, indiscutivelmente, podem acarretar impactos ambientais negativos no clima urbano, na drenagem, na cobertura vegetal, no conforto térmico, no sossego público, na mobilidade, na qualidade do ar, isto sem mencionar variáveis psico-sociais relevantes, tais como: privacidade, espaço pessoal e territorialidade.

Embora as discussões momentosas sobre impactos da verticalização urbana estejam repletas de informações técnicas, emoção e oportunismos, é preciso trazer uma questão pertinente:

De quem é a melhor percepção da qualidade de vida, em cidades que se verticalizam: daqueles que observam o fenômeno e opinam como meros espectadores ou daqueles que perdem o sossego sagrado e mergulham em zonas de sombra, sem apelação?

* Bolsista do Governo do Canadá na área de Ecologia Humana e professor universitário

 

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