A
face amarga do "boom" imobiliário e a omissão
do Poder Público
(*)Cassandra
Maroni
Festejado
pelo mercado, o assim chamado “boom” imobiliário,
resultado do crescimento da economia, maior oferta de crédito
e mudanças na regulamentação do setor, vem
mostrando sua face mais perversa, em Santos. Embora o governo
municipal se esforce em fazer uma avaliação ufanista
deste fenômeno, não há mais como tampar o
sol com a peneira. Os moradores do Embaré e da Ponta da
Praia, abalados pelo inferno dos bate-estacas, que o digam.
Não
se faz omelete sem quebrar ovos, dirão os defensores do
pretenso “progresso”, que adviria destes grandes empreendimentos
imobiliários. Resta saber, a quem caberá saborear
a iguaria, pois para as vizinhanças destas obras tem sobrado
o osso duro de roer da poluição sonora, rachaduras
e outros danos nos imóveis, transito pesado, caminhões
descarregando material de madrugada e por aí vai.
Mas
este é só o “aperitivo” que está
sendo servido aos antes tranqüilos bairros da orla. Os maiores
impactos destes empreendimentos serão sentidos após
sua ocupação, pois todos são de grandes dimensões,
com muitas unidades habitacionais, vasta oferta de vagas de automóveis
e recuos reduzidos nos andares mais baixos, onde são construídas
as garagens.
A
reprodução sem limites deste padrão construtivo
vai provocar sérios prejuízos urbanísticos,
sobretudo no transito, na ventilação, na iluminação,
na arborização, na drenagem e no sossego da população.
Ou seja, em troca de um “progresso” duvidoso, a qualidade
de vida de nossa cidade só poderá ser usufruída,
ainda que parcialmente, por aqueles que possuírem recursos
para viver nestas torres, muitos metros acima do solo.
Como
os financiamentos do mercado formal não vêm alcançando
famílias com renda inferior a quinze salários mínimos,
embora alguns lançamentos mais acessíveis venham
sendo anunciados, as unidades ofertadas não vêm suprindo
a necessidade habitacional da maioria dos responsáveis
pelos novos domicílios formados em Santos. O efeito disto
é perverso, pois haverá agravamento de um processo
de expulsão de parte da classe média para áreas
populares da cidade e dos municípios vizinhos, provocando
valorização imobiliária nestas áreas
e expulsão da população mais pobre para áreas
ambientalmente frágeis e ainda mais afastadas.
Ou
seja, ou o Poder Público deve priorizar a revisão
da legislação urbanística municipal, visando
controlar de fato a produção imobiliária,
de forma a orientar as construtoras a produzir para quem mais
precisa, e reduzir os impactos ambientais de seus empreendimentos,
mudando o atual padrão de construções para
outro sustentável e compatível com a qualidade de
vida que todos os santistas reivindicam.
Debruçar-se
sobre estas questões é a tarefa prioritária
que se impõe ao Legislativo Municipal. Com este objetivo,
a Comissão de Vereadores criada com o objetivo de propor
alternativas aos impactos dos grandes empreendimentos pretende,
nas próximas semanas, sensibilizar a Câmara como
um todo para a necessidade de uma profunda reflexão acerca
do processo de desenvolvimento urbano que afeta deleteriamente
a vida de nossos cidadãos.
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Geóloga e vereadora de Santos