Essa tal de Progressão Continuada

Por Ana Maria Pousada

Esta boa senhora, sem mesmo saber o porquê, esta levando a fama de ser a vilã pela péssima qualidade do ensino público em São Paulo.

Se os alunos não sabem ler, é ela a culpada. Se não sabem fazer contas, a culpa é dela; se são indisciplinados, violentos etc. e etc., é sempre a mesma cantinela, a culpa é da Progressão Continuada. Como senão bastasse tudo isso, todos os candidatos ao nosso palácio prometem acabar com ela caso sejam eleitos.

As culpas são tantas que esta pobre senhora resolveu procurar um especialista em educação para saber onde errou. Como trabalha em escolas públicas e o salário não é dos melhores, precisou procurar um especialista que atendesse na rede pública. Dirigiu-se, então, ao palacete da educação. Ao lá chegar pediu para falar com o melhor especialista que lá atendesse. O melhor especialista aquele que poderia realmente explicar-lhe o porquê de tantas culpas, infelizmente não poderia atendê-la, pois estava tomando chá. O seu assistente direto tinha deixado o cargo pois pretendia, agora, ocupar outro palácio.

E assim foi, que a coitada da Progressão Continuada, após rodar por todos os departamentos do palacete e já exausta, sentou-se em um banco a espera de um nobre para atende-la. Estava quase adormecendo quando um súdito aproximou-se e lhe disse:

-“Não se desespere e nem se culpe, a senhora não é culpada de nada. Errados são os responsáveis pela educação que ao receberem dinheiro do Banco Mundial precisavam, em contra partida, reduzir os índices de repetência e de evasão da escola pública. Como nunca se importaram realmente com a aprendizagem, resolveram aplicar o seu sistema de avaliação sem a infra-estrutura necessária para que as nossas crianças pudessem, de fato, terem a oportunidade de aprenderem sem serem reprovadas inúmeras vezes e abandonassem a escola.

- Pois é, disse a Progressão Continuada, para que o meu sistema de avaliação dê resultados será necessário que as escolas tenham classes de reforço fora do período escolar dos alunos; que a avaliação dos alunos seja feita continuamente dentro da sala de aula; que as escolas tenham estrutura para aplicar-me. Mas nada disto foi feito. Somente resolveram aplicar-me e pronto. E o mais triste disto tudo é que eu sei que o meu método é mais eficiente do que o outro. Mas fui usada de forma tão errada, que hoje todos me criticam, até mesmo os professores, que por ofício, deveriam me defender.

- O mais triste disto tudo, disse o súdito, é saber que os responsáveis poderiam ter feito tudo isso, pois dinheiro não faltou. Se não me falha a memória, 6 milhões de reais foram desviados da educação e utilizados no zoológico e no Memorial da América Latina.

- Espero que os bichinhos tenham tido mais sorte do que as nossas crianças e adolescentes. Talvez se o PISA fosse aplicado nos bichinhos os resultados tivessem sido melhor, diz a Progressão Continuada.

- Mas não se desespere minha senhora. Um dia encontraremos um príncipe à altura de sentar no trono do nosso palácio, e com certeza, poderemos comemorar o sucesso de uma ESCOLA PÚBLICA COM QUALIDADE.

 

 

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