As eleições na era da informação

(*) Fábio Alexandre Neitzke

Os recentes escândalos políticos e o verdadeiro clima de guerra na disputa eleitoral das eleições de 1º de outubro obrigam o eleitor a aprimorar seus sentidos na escolha de seus candidatos, sob pena de continuarmos sujeitos deste estado insustentável de coisas, com o descrédito de nossas instituições políticas.

Toda crise deve ser vista como uma oportunidade de mudança. Se assim, uma das primeiras mudanças deve ser com relação à atitude do eleitor brasileiro, que deve se libertar daquele conceito ultrapassado, mas, ainda usual e recorrente de que “não lembro em quem votei nas eleições passadas”. Quando a memória é curta desse jeito, fica difícil cobrar e aperfeiçoar o voto na eleição seguinte, punindo com o não-voto o candidato que deixou de honrar seus compromissos.

Os meios de comunicação têm contribuído significativamente com a democracia, quer seja escancarando os podres da política e divulgando de forma constante e abrangente notícias e nomes de pessoas envolvidas em corrupção e esquemas de fraudes públicas, quer seja criando espaços de discussão e de fiscalização de mandatos; de modo a diminuirmos as justificativas para o voto inconsciente. Se o chanceler alemão Otto Von Bismarck ainda fosse vivo, no máximo poderia defender que o povo fosse poupado de saber como é feita a salsicha, com relação à política, não podemos mais privar o eleitor de conhecer estas entranhas.

Felizmente, nestas eleições, mais do que nunca, existem instituições que disponibilizam pública e gratuitamente o currículo, patrimônio, denúncias de corrupção e outras informações acerca dos candidatos. A meu ver, nada mais justo, afinal, se o candidato se dispõe a disputa de um determinado cargo público, não pode pretender se insurgir contra uma devassa pública de sua vida privada. Através dos sites www.politicosdobrasil.com.br, www.tse.gov.br e www.transparencia.org.br, já é possível saber até mesmo quem são os doadores da campanha de cada candidato.

Ninguém aqui está defendendo um juízo de exceção ou mesmo uma patrulha moral, mas o eleitor tem o direito de estar bem informado acerca daquele que lhe pede o voto e dessa forma, observar determinados fatores, para que possa escolher um candidato de maneira segura.

Por mais que digam o contrário, a política tem características de ciência exata. Dentre elas destaco que ninguém fica rico com a política e quem doa hoje, cobra amanhã.

Não que todos os ricos sejam corruptos e nem mesmo que todos os pobres sejam íntegros. Mas é que a vida pública, por si só, não gera frutos e rendimentos capazes de fazer alguém ascender socialmente. Obviamente que há exceções, como, por exemplo, aqueles que desenvolvem paralelamente à política, outras atividades profissionais; ou então aqueles que são beneficiados com heranças e outros tipos de rendas lícitas; da mesma forma que também existem os espertos que passam a ganhar sucessivamente nas loterias.

Por isso, muita atenção aos sinais de riqueza entre pessoas que desenvolveram carreiras públicas. Estes são indícios quase certos de que há algo errado. Não raro, vemos pessoas que em poucos anos de vida pública acumulam e ostentam patrimônios absolutamente incompatíveis com os rendimentos legais.

Outro fator que deve ser utilizado pelo eleitor consciente é o do financiamento da campanha. Em minha infinita ingenuidade, sempre duvidei dos motivos que levam um candidato a gastar milhões de reais numa campanha a um cargo público que não lhe remunerará na mínima parte daquele investimento. Qual o sentido de tamanha gastança?

Claro que, nem todos os doadores se apresentam. Assim, você jamais verá o crime organizado doar recursos legalmente, mas é fato que existe, ainda que de forma dissimulada, uma bancada parlamentar do narcotráfico. Apesar disso, ao menos é possível identificar que são os doadores legais de recursos financeiros, o que já permite deduzir quais sãos os reais interesses que o candidato, quando eleito, irá defender. Por isso eu reafirmo: quem doa hoje, cobra amanhã.

Quer ver um candidato ficar nervoso e perder a compostura? Pergunte a ele como pretende defender a educação pública, se o maior doador de sua campanha é o dono de uma universidade privada.

Já ocorreu ao eleitor, o lobby que será instalado pelas empresas de publicidade e propaganda, no sentido de que as regras das próximas eleições, em 2008, sejam flexibilizadas para que os candidatos possam voltar a emporcalhar nossas cidades? Pois é este tipo de detalhe de saber o que se esconde de verdade por trás de uma candidatura que deve ser determinante na nova relação a ser estabelecida entre o eleitor e o candidato.

Outra questão importante na avaliação dos candidatos; tem a ver com a consistência de suas propostas. Outro dia vi um determinado candidato dizer que irá construir 7 milhões de casa populares. Resolvi fazer as contas. Considerei 4 anos de mandato e descobri que para cumprir sua promessa, 4.794 casas teriam de ser construídas por dia. Considerando sábados, domingos e feriados, e isso desde o primeiro até o último dia de seu mandato. Conclui que seria impossível. Conclui que estavam tentando me enganar e ali e decidi que não votaria nele (ou nela, para manter o suspense).

Assim como o Diabo foge da Cruz, não por acaso, certos candidatos buscam manter uma relativa e prudente distância dos eleitores bem informados. E como são criativos os nossos candidatos. No Nordeste brasileiro, há bem pouco tempo, determinado candidato costuma fazer campanha pelos rincões levando consigo uma máquina do tipo Polaroid. Quando encontrava uma família humilde e identificava nestes seus potenciais eleitores; reunia o grupo e mirava-lhes o apetrecho, registrando aquele instante. Para muitos sertanejos, aquela seria a sua primeira e única fotografia e, portanto, não havia dúvida, denominaram aquele homem de “Mão Santa” e assim elegeram-no governador. Afinal. Se um homem consegue fazer um milagre daqueles com uma máquina fotográfica instantânea, o que não conseguirá fazer quando puser as mãos sobre a máquina estatal?

Apesar de episódios folclóricos deste tipo, as eleições brasileiras possuem uma parcela de eleitores sofisticados, do tipo high-tech, wireless, on line, tanto faz. E não se enganem pensando que o eleitor brasileiro tolera a corrupção. Ocorre que, para repelir a corrupção, precisamos estar cada vez mais bem informados. E para aqueles que não têm a acesso a informação, cabe aos formadores de opinião, com ética e responsabilidade serem os portadores destas, trazendo a discussão e o questionamento da política ao cotidiano de cada um.

(*) Fábio Alexandre Neitzke é advogado e coordenador da Comissão de CIdadania da OAB-Santos
fabioalexandre_adv@hotmail.com

 

 

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