Ponto
de Vista: A vez dos excluídos e solidários
Maurício
de Araújo Zomignani (*) Colaborador
O
Brasil construiu, através de sua história, um projeto de sociedade
responsável pelo que é hoje a maior exclusão social do planeta.
Temos a segunda maior frota de helicópteros do mundo, o segundo maior mercado
de celulares, a segunda maior indústria de cirurgias
plásticas, ao mesmo tempo que péssimos índices de cobertura
de serviços de esgoto, terríveis indicadores de qualidade na área
de educação e, tragicamente, a maior concentração
de renda do globo. Mas vivemos um momento que está ofertando pelo menos
três poderosos motivos para que o País combata verdadeiramente sua
vergonhosa exclusão social.
O
primeiro deles é o marketing social. Já há algum tempo, empresários
inteligentes vêm descobrindo o retorno em imagem para empresas, e portanto
em simpatia e fidelidade a seus produtos, oriundo de ações no chamado
campo social. Empresas que consomem e descartam empregados em massa, que se isolam
da vizinhança atrás de câmeras e cercas eletrificadas, que
apenas enxergam custos em qualquer possibilidade de ação social,
vêm sendo claramente ultrapassadas por fundações, sindicatos
patronais, associações de empresas que desenvolvem importantes programas
nas áreas da cultura, educação, esporte, assistência
social.
Também
muito antiga como fenômeno, mas muitíssimo potencializada como preocupação
dos brasileiros devido às ações do crime organizado, a segurança
pública compõe um segundo grupo de motivações. Em
paralelo à explosão de lucros da indústria e serviços
ligados à segurança, resta dos atentados, cada vez mais forte, a
convicção de que não basta uma cidade ter programas, prédios
e verbas destinadas às políticas sociais se, como em Santos, as
melhores escolas, hospitais, centros esportivos e culturais concentram-se escandalosamente
nas regiões nobres.
Nesse
momento eleitoral, no entanto, delineia-se com clareza a profundidade do abismo
social e existencial dos excluídos e sua importância política.
Governos, partidos e candidatos, em nossa história, foram simplesmente
destroçados por apenas um dos inúmeros escândalos que foram
descobertos, investigados e, como surpresa positiva, reprimidos por uma Polícia
Federal crescentemente aparelhada e profissionalizada. O Governo Lula não
só resistiu às tremendas tempestades, mas talvez conquiste a reeleição
simplesmente por ter promovido a massificação da presença
do Estado junto às classes desfavorecidas.
A
Economia, a Segurança e a Política, isoladamente, já seriam
preocupações centrais das sociedades, mas articuladas como se mostram,
resultam em argumento suficiente para motivar quaisquer empresários, consumidores,
dirigentes, eleitores, trabalhadores e técnicos minimamente dotados de
sensibilidade e inteligência. Quem não se mobilizar contra a desigualdade
não sobreviverá politicamente, economicamente, fisicamente, quem
sabe. Num primeiro momento, a motivação tende a ser mesmo superficial,
mas nem por isso teremos que aceitar como respostas apenas ações
assistencialistas e marqueteiras.
A
articulação de programas que apóiem e reconheçam a
riqueza cultural, esportiva, econômica, empreendedora e política
das periferias, abandonando o velho modelo de trazer soluções prontas
e insuficientes para seres apassivados em Santos, a Assistência Social
teve seu orçamento diminuído! será importante eixo
de ação. O fortalecimento das pessoas para o trabalho, para a produção,
para o protagonismo social, em ações desenvolvidas sob a ótica
e a lógica do interesse público e da parceria com as forças
solidárias serão o fio condutor. Como gerentes destas políticas
e programas, os Conselhos e Fundos de Políticas Públicas, desde
que reconheçam o combate à desigualdade como seu grande campo de
ação, passarão, assim, para o primeiro plano desse processo
de mudança que, agora como nunca, concentra os mais caros sonhos, necessidades
e prioridades das sociedades santista e brasileira.
(*)
Maurício de Araújo Zomignani é assistente social, membro
do Fórum da Cidadania.